O e-commerce do sudeste asiático vem ganhando cada vez mais espaço no comércio ocidental, principalmente no Brasil.

A chegada dos armazéns da Shopee em solo brasileiro, no final de 2019, por exemplo, foi um momento de grande reajuste no setor. O marketplace de Singapura apresentava uma comissão zero sobre a mercadoria, além do frete grátis. Hoje, no entanto, as regras de comissionamento mudaram, mas não interferiram na potência da empresa no país, afinal, a plataforma cobra do seller uma das menores comissões do mercado.

O que poucos sabem, entretanto, é a evolução desse mercado que encontrou sua ascensão após a bolha financeira da internet de 2000. Entender como ele opera é importante para o seller que se depara com essas novas plataformas cheio de dúvidas.

Por isso, trouxemos um conteúdo que explique, com clareza, como players – tal qual Shopee e Alibaba – se tornaram os gigantes que são hoje, com seus desafios e oportunidades. Boa leitura!

Antes da bolha da internet

Os anos 90 foram o período de ouro da internet. A popularização dos computadores e da World Wide Web – o que conhecemos como WWW – fez com que os preços caíssem de tal forma, que os consumidores tivessem a necessidade de possuir um Personal Computer (PC) em suas casas.

Nesse contexto, surgiu o e-commerce. Várias empresas digitais começaram a faturar cada vez mais com vendas online e, consequentemente, atrair altos investimentos.

O sudeste asiático havia atraído grande parte do investimento estrangeiro para o e-commerce, devido às altas taxas de juros. Países como Malásia, Singapura, Tailândia e Indonésia viram suas economias alavancarem, garantindo certa estabilidade naquele momento.

O poder de compra também aumentou, na proporção em que as companhias de comércio eletrônico eram fundadas. Parecia um ótimo vislumbre do que estava por vir.

No entanto, a ostentação desse mercado gerou o chamado efeito manada. O termo, por sua vez, corresponde à grande quantidade de investidores amadores ou profissionais que passaram a investir no mesmo setor de negócios sem pensar, cirurgicamente, se valia a pena de fato, ou não.

Por isso, grandes empresas que tinham propósitos duvidosos passaram a valer muito mais do que deveriam, apenas pelo fato de estarem inseridas na World Wide Web. Quando os investidores perceberam isso, e começaram a vender as ações em massa, a bolha estourou, levando diversas companhias à falência.

Além disso, uma crise iniciada na Tailândia, em 1997, devido a decisão de tornar o câmbio flutuante, desestabilizou os famosos Tigres Asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan). Países como Taiwan e Coreia do Sul tiveram que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e as demais economias dentre as potências citadas, com exceção de Singapura, foram sofrendo pelo efeito cascata da crise e entraram em recessão.

Período após a explosão da bolha da internet

A virada do milênio foi bem impactante para os negócios. O e-commerce do sudeste asiático passou a ser dominado pelas empresas B2B – Business to Business (quando uma empresa comercializa com outra) – já que os consumidores não tinham confiança suficiente nas vendas online para evoluir o formato B2C – Business to Consumer (quando uma empresa comercializa com pessoas físicas) – devido à eclosão da bolha da internet e a crise de 1997.

A própria Amazon demorou quase uma década para se reerguer. Enquanto os governos asiáticos optaram por promover uma imagem “internet friendly” para encorajar o consumo digital.

Para conseguir estabilizar o e-commerce, o sudeste asiático acabou passando por intensas barreiras de entrada. Trouxemos algumas para você entender.

Quais foram os desafios?

Logo após os abalos das crises, a desconfiança do meio digital promoveu uma importante barreira: o baixo uso da rede. Segundo Nielsen, a taxa de penetração da internet era de, aproximadamente, 38% entre a população com 15 anos ou mais – exceto Singapura, que já possuía uma penetração consideravelmente alta, de 67%. 

Enquanto isso, países ao redor do mundo já conseguiam se restabelecer, como a Austrália (78,9%), Estados Unidos (78,1%) e Japão (79,5%).

Além do baixo número de usuários, havia um problema cultural quanto aos meios de pagamento. Os países do sudeste asiático não costumavam usar cartões de crédito e preferiam, majoritariamente, exercer seu poder de compra apenas quando era possível pagar em dinheiro vivo. Essa aversão ao crédito bancário era inflada, ainda, pelo alto número de fraudes e pela corrupção em alguns países, o que dificultava o ato de compra online.

Mesmo com a ascensão rápida do e-commerce em Singapura, era, também, muito difícil a propagação das plataformas, devido à enorme diferença cultural entre os povos, principalmente das nações islâmicas. Essa diversidade das culturas dificultava a publicidade que, para ser efetiva, deveria se adaptar em cada região. A prática, no entanto, é cara e insustentável, em larga escala, durante períodos de recessão econômica.

No entanto, havia uma luz no fim do túnel.

Afinal, quais foram as oportunidades de crescimento?

Visto que a população do sudeste asiático tinha uma aversão sistemática ao pagamento no crédito, companhias criaram o COD (Cash on Delivery, ou Pague na Entrega, em tradução livre). Provedores de serviço do e-commerce, como WeLoveShopping e aCommerce conseguiram desfrutar do mobile commerce para chegar ao público em regiões periféricas e vender os produtos da plataforma usando o COD. Dessa forma, conseguiram não só alavancar as vendas, mas também vender itens mais caros, além de começar a restabelecer a confiança das pessoas nas vendas online.

COD Cash on Delivery

Aliás, com a falência de muitas companhias gigantescas internacionais que dominavam o mercado digital, muitas empresas do sudeste asiático utilizaram o momento para investir em conteúdos virtuais. Organizações estrangeiras, então, passaram a levar escritórios e armazéns para os países orientais e vender produtos que atendessem as necessidades dos povos que viviam ali. Dessa forma, o e-commerce do sudeste asiático conseguiu se reerguer com tamanha força já em 2011.

A primeira companhia estrangeira a adentrar a região, foi a europeia Rocket Internet, a qual ergue startups e investe em empresas de varejo virtual. Em Singapura, ela abriu inicialmente a Zalora, especializada em moda.

Com sucesso, logo lançou o Lazada Malaysia, um marketplace que pretendia vender, em solo nacional, aquilo que a população costumava comprar de empresas estrangeiras, como livros, brinquedos, videogames e cosméticos, além de fomentar o comércio local. O grande diferencial que o Lazada apresentou foi a agilidade nas entregas – o que antes levava meses para chegar, passou a levar dias.

Essas companhias chamaram a atenção de investidores e logo se espalharam para países vizinhos.

Na Tailândia, surgiu o WeLoveShopping, como um marketplace C2C – Consumer to Consumer (quando uma pessoa física vende para outra). 

O COD (Cash on Delivery) foi adotado rapidamente por essas empresas, a fim de corrigir a falta de confiança dos consumidores. Ainda, passaram a construir prédios para instalar, fisicamente, as grandes organizações, promovendo uma política de retorno de produtos dentro de 14 dias, e frete rápido e gratuito nas entregas domésticas.

A manutenção da confiança dos consumidores no e-commerce promoveu uma crescente taxa de penetração da internet no sudeste asiático. Em Janeiro de 2021, segundo Estatísticas da Internet Mundial, foram registradas 92% em Taiwan, 89% na Malásia, 88% em Singapura, 82% na Tailândia, 71% na Indonésia e 69% na China.

E-commerce do Sudeste Asiático
Fonte: Internet World Stats Jan 2021. Criação própria.

Lembrando que, em estimativas de 2021, só a população da Ásia corresponde a 54,9% da população mundial, com aproximadamente 4,3BI de pessoas.

Alibaba e Shopee são dois bons exemplos de duas gigantes que surgiram do e-commerce asiático e que, hoje, têm bastante influência no Brasil.

Alibaba

O grande player chinês, Alibaba, tem 56% do mercado da China, segundo análise da XP, e tem apostado, atualmente, na penetração do mercado brasileiro.

O AliExpress não é um marketplace desconhecido no Brasil, mas tem pouca presença no varejo nacional devido aos longos períodos de entrega. No entanto, o Alibaba está focado em resolver esse problema.

Em fevereiro de 2021, a companhia já anunciou que está fretando quatro voos semanais para o Brasil, a fim de conseguir entregar as encomendas em até 10 dias. O objetivo é atender a demanda e fomentar a concorrência com o crescimento do e-commerce durante a pandemia do Covid-19.

Shopee

A Shopee surgiu em 2015, em Singapura. O marketplace, aliás, é o grande concorrente do Alibaba no sudeste asiático.

Chegou ao Brasil no final de 2019, com a proposta de vender sem nenhuma comissão e frete grátis. No início de 2021, sofreu um reajuste nas regras de comissionamento, passando a cobrar 5% sobre o valor do produto.

O marketplace tem se mostrado um ótimo concorrente dos players que dominam o mercado brasileiro, como Mercado Livre, Magazine Luiza, Via Varejo e B2W, trazendo um amplo catálogo de produtos importados com rápida entrega, devido aos armazéns já dispostos no Brasil.

Shopee

O Investimento em expansão dos negócios para países estratégicos, como o Brasil, passa a ser um dos objetivos das grandes companhias do e-commerce da Ásia.

O grande desafio é aumentar a competitividade, diminuindo o tempo nas entregas dos produtos. Em uma realidade em que empresas do e-commerce criam seus próprios sistemas logísticos, a fim de entregar seus produtos em tempo recorde, visar a agilidade dos processos é fundamental.

Para isso, essas companhias têm construído espaços físicos para armazenar produtos e diminuir consideravelmente o tempo de entrega em países com grande demanda.

A Shopee já desembarcou no Brasil, será o Alibaba o próximo?

Aprendeu um pouco sobre como surgiram esses gigantes do e-commerce oriental? Então, agora, aprofunda-se no conteúdo lendo nossa matéria sobre os Marketplaces Chineses.

Marketplaces Chineses

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Arthur Pontara

Arthur Pontara

Analista de Inboung Marketing no Magis5, mineiro, aspirante a cineasta, apaixonado por tecnologia e inovação entre os jovens empreendedores. Para falar com Arthur, basta enviar um e-mail para arthur.pontara@magis5.com.br