Em meio a ascensão do comércio eletrônico em 2020, o Brasil ganhou uma das maiores potências do e-commerce do sudeste asiático: A Shopee. A empresa também lançou um aplicativo para o México em Fevereiro deste ano, seguido pelo lançamento de seu website no Chile e na Colômbia em Junho de 2021.

No entanto, enquanto os números no México, Chile e Colômbia ainda são muito pequenos para terem uma atenção maior, o Brasil está se preparando para ser um dos mercados mais importantes para o gigante asiático do comércio eletrônico.

Shopee X Brasil: estratégias para quebrar a barreira de entrada

A Shopee já realizou feitos incríveis. Em seu país natal Singapura, a empresa precisou de somente cinco anos para se tornar o site de compras mais visitado de todo o Sudeste Asiático.

O Brasil já poderia ser o maior mercado da Shopee em usuários ativos mensais, ultrapassando até a Indonésia, de acordo com a empresa de investimento Bernstein. Os analistas do Grupo Itaú estimam que o valor dos bens vendidos pela Shopee em 2020 superou o valor de 12 bilhões de reais.

A Shopee, em meio à pandemia, aterrissou no Brasil fazendo bastante barulho: Frete grátis ao comprador e 0% de taxa de comissão para o seller como estratégia de penetração de mercado.

Escalar as vendas para o Brasil se deu com um principal objetivo: Oferecer mais mercados aos vendedores estrangeiros. Apesar disso, de acordo com o grupo Sea, o mercado Sul-Americano ainda está engatinhando seus primeiros passos. Ainda assim, segundo a pesquisa da Visual Captalist, em 2020, o continente foi o que teve um crescimento em vendas de e-commerce mais acelerado, com destaque, o Brasil e Argentina:

A América Latina é dominada por suas duas maiores economias – Brasil e México – em uma extensão ainda maior do que o Sudeste Asiático, que é liderado pela Indonésia e Tailândia. O produto interno bruto (PIB) combinado do Brasil e do México representa quase 70% do valor total entre os seis maiores países da região. Em contrapartida, a Indonésia e a Tailândia representam apenas 54% do PIB total de suas seis maiores economias.

comparação de dados e indicadores economicos e do ecommerce entre países do sudeste asiático e Brasil

Se compararmos o Sudeste Asiático com a América Latina, percebemos que o cidadão latino-americano médio possui um maior poder de compra se comparado às pessoas do sudeste asiático. O primeiro tem um PIB per capita ponderado de US $ 7.400, em comparação com o último de US $ 4.900.

Enquanto isso, a penetração média do e-commerce na América Latina é de 6%, semelhante à do Sudeste Asiático. Isso contrasta com os EUA, que tem uma taxa de penetração de 20% e a China com 25%.

Analisando esses últimos dois pontos, a combinação de rendas mais altas e níveis relativamente baixos de penetração do comércio eletrônico no continente, nos revela uma grande oportunidade de mercado.

Com o sucesso do jogo mobile Free Fire no Brasil, a Sea enxergou uma oportunidade única no país com a entrada da Shopee, apostando em campanhas para aumentar o reconhecimento de sua marca e atrair mais usuários na América Latina por meio de esforços promocionais e de marketing, como jingles cativantes e colaborações com influenciadores locais, taxas agressivas e cupons de descontos. Tenho certeza que você já foi impactado pelas campanhas do Jackie Chan e de frete grátis não é mesmo?

A empresa também aproveitou a popularidade do Free Fire, para promover sua plataforma de comércio eletrônico, oferecendo aos jogadores recompensas em troca de usar a Shopee. O marketplace utiliza uma abordagem para divulgar  produtos de baixo custo: um aplicativo que oferece jogos e cupons para usuários, um sistema próprio de gamificação.

Todos esses esforços renderam frutos:

  1. A Shopee e Free Fire, estão posicionados entres os apps mais baixados do Brasil na categoria de compras e jogos.
  1. O aplicativo da Shopee agora tem o segundo maior número de usuários ativos no Brasil, atrás apenas do Mercado Livre, que atualmente é a empresa mais valiosa da América Latina. Essa conquista é ainda mais notável quando você considera que a Shopee passou de zero para mais da metade do número de usuários ativos do Mercado Livre (líder de mercado) em menos de 2 anos.
usuarios ativos nos marketplaces do brasil - shopee e mercado livre

A Shopee também está muito à frente de players brasileiros mais consolidados, como Magazine Luiza e Americanas da B2W, apesar de que, se compararmos os downloads cumulativos, o número é menor. Veja abaixo:

downloads e usuarios ativos entre os maiores marketplaces do brasil

Um mercado mais lucrativo do que o Sudeste Asiático?

A Shopee possui um dos menores take rates do mercado se comparado às outras plataformas de ecommerce, perdendo somente para a Aliexpress da Alibaba que atualmente oferece uma comissão de somente 10% ao seller.

take rates dos amrketplaces brasileiros vs shopee

Os gigantes Magazine Luiza, Mercado Livre e B2W têm mais que o dobro do Shopee das taxas de take rate se comparado a Shopee. 

Supondo que os negócios da Shopee na América Latina sejam capazes de se equiparar ao desempenho dos outros players que atuam no Brasil e na América Latina, isso deve aumentar a taxa de aceitação do negócio como um todo.

Atualmente, a Shopee possui uma ótima saída de produtos de ticket médio menor. No banco de dados do Magis5, a Shopee possui praticamente a mesma relevância em número de pedidos do Mercado Livre, porém, seu GMV ainda é 3 vezes inferior se comparado ao atual maior marketplace da América Latina. Veja abaixo:

Quantidade de pedidos da Shopee em comparação ao Mercado Livre
Fonte: Banco de dados Magis5

Observe a curva de crescimento em quantidade de pedidos que foram feitos no marketplace Shopee, que inclusive ultrapassou o Mercado Livre no mês de Setembro. Embora o número de pedidos feitos na plataforma seja bastante alto, o valor transacionado (GMV) entre esses pedidos não chega aos R$20 milhões mensais, enquanto o Mercado Livre já transaciona mais de R$60 milhões por mês dentro do nosso hub de integração.

GMV (Valor transacionado) de pedidos da Shopee em comparação ao Mercado Livre
Fonte: Banco de dados Magis5

Entraves da Shope no mercado brasileiro

É inegável o gigantismo da Sea que atualmente, é uma das maiores pedras no sapato dos gigantes do comércio eletrônico brasileiro, porém a empresa ainda possui alguns obstáculos, principalmente na parte logística do negócio.

Sistema de distribuição Logístico

O comércio eletrônico no Brasil, ainda é prejudicado por uma infraestrutura de logística nada favorável, com estradas ruins e engarrafamentos épicos, muitas vezes resultando em atrasos nas entregas. Afinal de contas, o território brasileiro possui dimensões continentais e ainda possui uma grande dependência do sistema logístico rodoviário, em sua maioria por caminhões e veículos de entrega.

comparação de matrizes de transporte de carga entre os país de mesmo porte territorial

Dados da ANTF (Associação Nacional de Transportes Ferroviários) de 2018 mostram que o Brasil possui cerca de 65% de toda sua malha de transportes de carga composta pela matriz rodoviária. Já se analisarmos o Índice de Performance Logístico, uma ferramenta de benchmarking feito pelo Banco Mundial, vemos que o Sudeste Asiático, onde a Shopee ainda possui uma maior relevância, ainda está na frente do Brasil.

indice de permonace logistica do banco mundial

Mas qual é o resultado disso na prática? Atrasos na entrega, dependência de combustíveis como a gasolina, frete alto, além dos custos de envio. Estes podem ser maiores do que no Sudeste Asiático e para os concorrentes latino-americanos da empresa por causa do foco da Shopee nos consumidores em cidades de nível inferior, que tendem a ter uma infraestrutura de logística menos desenvolvida.

Para driblar esses entraves logísticos, empresas como Magalu, B2W, Amazon e Mercado Livre vêm investindo fortemente em grandes centros de distribuição em regiões estratégicas e adotando uma logística de distribuição omnichannel com vários parceiros para efetuar as entregas. Já a Shopee, que até então estava 100% dependente da logística dos Correios, já vem integrando com transportadoras como Sequoia e Total Express.

Novos marketplaces entrando no mercado brasileiro

Players de comércio eletrônico como Alibaba, Wish e Shein também estão entrando no mercado brasileiro. Neste momento, essas empresas ainda não parecem ser uma ameaça para as operações da Shopee no Brasil, mas certamente podem apresentar forte concorrência no futuro.

O Alibaba está fretando três voos semanais entre China, Brasil e Chile, reduzindo o tempo de entrega entre esses mercados para uma média de três dias. Dessa forma, o prazo de entrega do produto que era uma das maiores objeções de compra entre os consumidores, é quebrada.

Um artigo recente da Tech in Asia sobre Shein destacou que ele pode estar mudando para um modelo de mercado que pode oferecer suporte a vendedores terceirizados. O nível de competição que representa para a Shopee depende se ela expande a gama de produtos que oferece além da moda.

A performance de ambos os players está indo bem no Brasil, recentemente, conforme mostrado em um dos gráficos apresentados anteriormente. Os usuários ativos do Ali Express aumentaram em relação ao início de 2021, após uma estagnação por um período, enquanto o número de usuários de Shein tem crescido de maneira constante.

O que devemos esperar da Shopee no futuro?

Embora a chegada ao Brasil tenha sido tardia em relação aos outros players do mercado de comércio eletrônico, a Shopee não chegou nesse momento por acaso. A estratégia de observar os primeiros entrantes em um mercado, estudá-lo para depois atacá-lo, já é bem conhecida. Empresas como AliExpress já estavam no território brasileiro há 11 anos.

Em busca de mais rentabilidade, a Shopee aumentou a comissão para 12% e 18% caso o vendedor queira oferecer frete grátis, desde então – quase duas vezes o que os marketplaces podem cobrar em países do Sudeste Asiático, indicando as margens de lucro potenciais da América Latina.

Pensando, também, em aumentar seu ticket médio, a Shopee mudou a tarifa da comissão em Outubro de 2021. Segundo a nova norma, para quem utiliza a comissão fixa normal, de 12%, em compras acima de R$850,00, o vendedor passa a pagar apenas R$100,00 de comissão. Já para quem utiliza a taxa de comissão com o pacote adicional de frete grátis, de 18%, em compras acima de R$500,00 também passa a pagar apenas R$100,00 de comissão.

Como vimos anteriormente, ainda assim é uma das menores comissões do mercado, além disso, a América Latina possui uma renda maior e uma taxa de penetração do e-commerce menor, evidenciando uma oportunidade latente para o marketplace que apesar de estar no início, está montando um ecossistema de consumo com jogos e vendas de produtos.

Para aproveitar ao máximo a oportunidade da explosão de  fintechs e manter comerciantes e usuários em sua plataforma de comércio eletrônico, a Shopee deve aprimorar suas ofertas de serviços financeiros na América Latina. 

Um dos próximos passos da Shopee deve ser no mercado financeiro, fornecendo linhas de crédito para pagamentos seguindo a linha do Mercado Livre com o Mercado Pago e do Magalu com Magalu Pay, além disso, a empresa deve focar seus investimentos em projetos de logística para gerar uma menor dependência de parceiros, assim como foi feito pelos seus principais concorrentes. 

Se a Shopee jogar suas cartas corretamente na América Latina, poderá se beneficiar desses ventos favoráveis ​​não somente no Sudeste Asiático, mas também em um outro grande mercado potencial.

Que tal integrar seu negócio agora a esse gigante do comércio eletrônico?

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Vinicius Ribeiro

Vinicius Ribeiro

Gerente de Marketing no Magis5, mineiro apaixonado por inovação, tecnologia e transformação digital. Para falar com Vinícius, basta enviar um e-mail para vinicius.ribeiro@magis5.com.br